J.R.R. Tolkien era um racista?
- Franz Brehme
- 29 de ago. de 2022
- 7 min de leitura

Texto original de Michael Martinez - https://middle-earth.xenite.org/was-j-r-r-tolkien-a-racist/?fbclid=IwAR0tltanQ-5S3V8nneX1QlWSm9tuAFRqf11C42wecpqvel3z6OsSkukHbZM
Tradução de Franz Brehme e revisão de Caio Silva

Muitas pessoas acusam J.R.R. Tolkien de ter sido um racista. A acusação é falsa, como provam suas próprias palavras na vida real e ficção. Ele detestava racismo e em sua ficção os racistas sempre perdem.
Pergunta: J.R.R. Tolkien era um Racista?
Resposta: Não. J.R.R. Tolkien não era um racista. Na verdade, ele teria impressionado muitas pessoas como um homem bastante esclarecido para sua geração. Quando se aposentou em 1959, Tolkien fez um discurso de despedida para a Universidade de Oxford. Está publicado na integra em “J.R.R. Tolkien: Os Monstros e os Críticos e Outros Ensaios”[1].
Ele entregava sua posição como Professor de Língua Inglesa e Literatura para Norman Davis, nascido na Nova Zelândia. Perto do final de seu discurso, Tolkien agradeceu seu sucessor e disse:
“Se considerarmos o que o Merton College e o que a Oxford School of English devem aos Antípodas, ao Hemisfério Sul, especialmente aos estudiosos nascidos na Austrália e na Nova Zelândia, pode-se acreditar que é justo que um deles agora ascenda a uma cadeira de Inglês de Oxford. De fato, pode-se pensar que a justiça está atrasada desde 1925. É claro que existem outras terras sob o Cruzeiro do Sul. Eu nasci em uma; embora eu não clame ser o mais erudito daqueles que vieram até aqui desde o outro extremo do Continente Escuro. Mas eu tenho o ódio do apartheid em meus ossos; e acima de tudo eu detesto a segregação ou separação entre Língua e Literatura. Eu não me importo qual delas você pensa que é Branca.”
Em 1944 J.R.R. Tolkien escreveu para seu filho:
“(...) a palavra tem sido usada de forma tão abusiva pela propaganda que ela deixou de ter qualquer valor para a razão e se tornou uma mera dose emocional para gerar calor. No máximo, ela parece implicar que aqueles que o oprimem devem falar (nativamente) o mesmo idioma — o que, em último caso, é a tudo que as idéias confusas de raça ou nação se resumem; ou de classe na Inglaterra, por falar nisso.” – Carta nº 81[2]
No entanto, muitas pessoas alegam falsamente que J.R.R. Tolkien era um racista porque eles acreditam que O Senhor dos Anéis foi escrito como uma história de “povos brancos contra todos os outros povos com outro tom de pele”, o que simplesmente não é verdade.
O argumento de que J.R.R. Tolkien era racista é propaganda neonazista – Muitos anos atrás, supremacistas brancos começaram a argumentar na Internet que O Senhor dos Anéis promove a supremacia branca e o racismo. Eles usaram mentiras descaradas e erros inteligentes de omissão para fabricar uma narrativa convincente em torno dessa tese ridícula. Infelizmente – apesar das inúmeras denúncias e várias tentativas de desmascaramento – a mentira se firmou e muitas pessoas agora acreditam que Tolkien era um “Nordicista”. “Nordicismo” é outro nome para “supremacia branca”.

Entenda que qualquer um que repete esses argumentos e promove esse ponto de vista na verdade está apoiando e divulgando propaganda racista. Não há verdade na ideia de que O Senhor dos Anéis é um livro racista.
Há muitos personagens de pele branca em O Senhor dos Anéis que estão engajados de forma ampla no mal mais odioso, incluindo Saruman e Língua de Cobra. Mas nos materiais de pano de fundo fornecidos nos apêndices há muitas referências a outros povos de pele clara e cabelos louros envolvidos no mal - incluindo os amados Elfos de Tolkien (que se rebelaram contra os Valar na Primeira Era e criaram os Anéis de Poder na Segunda Era), os Númenoreános (que conquistam vastas terras na Terra-média e escravizam muitos povos na Segunda Era; e dos quais muitos se rebelam contra Deus e cometem grande mal) e tribos de nortistas que se aliam aos inimigos de Gondor.
Mas na própria Gondor, e aparentemente também em Arnor, havia homens de descendência númenoreána “fiel” que sucumbiram ao grande mal e se voltaram contra seus pares. Alguns desses homens tomaram a cidade e o porto de Umbar, transformando-o em uma potência rival que se opunha a Gondor. E entre os Rohirrim, aqueles “nobres nortistas” que muitos leitores sugerem que personificam as visões idealizadas de Tolkien sobre a cultura anglo-saxônica, havia alguns que aparentemente caçavam o pacífico povo da floresta de Ghan-Buri-Ghan por esporte. Essa não é uma atividade muito “boa” e seria insano alguém sugerir que J.R.R. Tolkien queria que as pessoas acreditassem que ele queria que qualquer homem caçasse outras pessoas por esporte.

Assim, embora o próprio Tolkien não fosse racista, o tema do racismo aparece com bastante frequência em O Senhor dos Anéis. Muitas vezes são as raças auto-proclamadas como “superiores” (os Elfos e os Númenoreános em particular) que causam as grandes calamidades da Terra-média. O tema recorrente nas histórias de Tolkien sobre “o bem contra o mal” é que todas as coisas más começam como coisas boas e no final apenas o bem que Deus aprova sobreviverá. Como por exemplo, são os hobbits mansos, humildes e de pele não tão branca que derrotam Sauron e salvam a Terra-média.
Também devo observar aqui (como frequentemente faço) que muitos dos “bons” povos da Terra-média são de pele escura. Eles moram em Bree, moram em Gondor e moram em outros lugares. As frentes de batalha não são traçadas entre “brancos bons” e “peles escuras maus” – exceto nas distorcidas representações equivocadas do livro que são usadas para justificar defesas mal construídas de Tolkien ou as tentativas mau-guiadas de condená-lo por ser “racista".
Tolkien usou o racismo como um artifício literário para dividir suas culturas imaginárias, para permitir que elas excedessem seu alto potencial moral e enfrentassem a tentação de acreditar em sua própria superioridade. Quando essas “castas superiores” cruzam essa linha, devem pagar um preço terrível por suas falhas morais. Em outras palavras, no ponto de vista de Tolkien não há nada de bom no racismo, que ele pessoalmente condenou e se opôs.
Infelizmente, embora muitas pessoas se levantem rapidamente para defender J.R.R. Tolkien contra os argumentos absurdos que seus críticos levantam contra ele, eles caem rapidamente na armadilha de responder a provocações tolas – uma armadilha que é projetada apenas para controlar a conversa. Confie em mim, eu andei nessa esteira mais do que gostaria de lembrar. Você não pode ganhar uma discussão com alguém que declara cegamente que J.R.R. Tolkien era um racista. Na melhor das hipóteses, você pode escrever sua própria explicação ponderada sobre o que Tolkien estava fazendo e não responder diretamente a esses sensacionalistas. Afinal, é isso que eles anseiam: uma resposta apaixonada sua e de tantas outras pessoas quanto eles possam provocar.
E, no entanto, tendo dito tudo isso, devemos reconhecer que, em algum nível, praticamente todas as expressões culturais são racistas de alguma forma. A cor da sua pele não faz de você um racista. A geração em que você nasceu não faz de você um racista. Se você sente preferência por um grupo em detrimento de outro; se você pensa mal de um grupo de pessoas, mas não de todos os outros, você está sendo racista. A maioria, senão todas as pessoas são racistas por essa definição. É uma parte da natureza humana, embora seja uma que muitos de nós esperamos poder superar.

Um dos desafios que enfrentamos para superar o racismo são as muitas nuances e variações que aplicamos coletiva e individualmente à palavra “racismo”. Racismo não é simplesmente uma palavra politicamente carregada – é uma palavra que engloba todas as indignidades que um grupo de pessoas acumula sobre outro. Praticamente todos os grupos étnicos de hoje são descendentes de povos que em algum momento foram desprezados, ridicularizados, escravizados ou humilhados e devastados por outros grupos de pessoas.
O racismo é mais facilmente reconhecido por aqueles que sentiram seu veneno, quanto mais frequentemente sentido, mais facilmente reconhecido.
O racismo não é necessariamente uma questão de escolha consciente, embora para algumas pessoas seja.
O racismo não escolhe lados. Aquelas pessoas que acusam todos os membros de qualquer outro grupo de serem racistas estão expressando racismo.
O racismo é o grande divisor, a peneira com a qual nos separamos entre “aqueles que são como eu” e “aqueles que não são como eu”. Líderes políticos e religiosos ao longo dos milênios e em todas as culturas humanas usaram o racismo para aumentar seu poder e influência, destruir seus inimigos (imaginados) e garantir que permanecessem como líderes poderosos e influentes.
Nos Estados Unidos, o racismo tem sido simbolizado pelas divisões entre famílias ricas de descendência do norte da Europa e famílias oriundas de povos não europeus em todo o mundo; no entanto, na África você encontrará o racismo fomentando rixas e guerras entre povos nativos (como os conflitos entre tutsis e hutus); na América do Sul, você encontrará racismo direcionado de região para região, através de linhas econômicas, variando por dialeto e por etnia. Na Ásia, o racismo há muito divide muitos grupos étnicos dentro de nações que marcham sob um nome, uma bandeira.
Não podemos escapar dos aspectos racistas da cultura humana; só podemos esperar controlá-los, ensinar a nós mesmos que temos mais a ganhar pensando uns nos outros como irmãos e irmãs descendentes das mesmas famílias (que a ciência atualmente nos diz que vieram da África).
O Senhor dos Anéis engloba a tentativa de J.R.R. Tolkien em revelar a tolice de colocar a esperança em ideais racistas, de pensar que alguém é melhor do que seus vizinhos. Tolkien teceu o racismo deliberadamente no tecido de sua história, talvez porque ele próprio cresceu vítima de preconceito em mais de uma maneira. Ele era um órfão criado por um padre católico em um país que favorecia famílias “completas” e que havia se separado da Igreja Católica Romana.
Nem todos os preconceitos são baseados na percepção de “raça”; muitos são baseados nas distinções traçadas entre “classes” baseadas em economia e conexões familiares, religião e política, e simples geografia e dialeto. Se há algo a ser aprendido ao discutir o racismo em O Senhor dos Anéis, deveria ser que todos nós estamos no nosso melhor quando colocamos o outro à frente de nós mesmos, independentemente de como alguém fala, se parece ou vive.
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